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Imagina viver no Antigo Egipto: o sol a pique, poeira em todo o lado, pão feito com cereais moídos em pedra, e uma dor de dentes que não te deixa comer nem dormir. Não havia “marcação online”, não havia anestesia moderna, não havia antibióticos. Havia, isso sim, uma realidade muito simples: quando a boca falha, a vida encolhe. É por isso que este tema não é apenas curioso. É útil. Porque mostra como a preocupação com higiene, dor, infeção e perda dentária não é moderna. É antiga, persistente e, em certa medida, inevitável. E ajuda também a pôr as coisas no lugar: o que mudou não foi o ser humano, foi a previsibilidade da medicina dentária. Hoje, o que antes era tentativa e improviso passa por diagnóstico, técnica e controlo de risco, sobretudo em áreas como a dentisteria restauradora, onde o objetivo é o mesmo de sempre: manter função, travar dor e evitar que um problema pequeno ganhe estatuto de emergência.

O desgaste que “imitava” cárie e a pista escondida na farinha

Quando se fala em dentes antigos, muita gente imagina logo “cáries por açúcar”. Mas o Egipto antigo oferece um retrato diferente e, para quem gosta de provas, mais concreto: o desgaste dentário severo surge repetidamente descrito em estudos de medicina e antropologia sobre restos humanos egípcios, ligado a dietas com partículas abrasivas. O grão moía-se em pedra, e essa pedra não desaparecia por magia: ia parar à comida. O resultado não era apenas dente gasto. Era dentina exposta, fraturas, fissuras, sensibilidade, e um risco maior de inflamação da polpa e infeções. A dor, aqui, não precisa de doces. Precisa de atrito, tempo e tecido exposto. E isto explica por que razão aparecem, tão cedo, tentativas de “tapar”, aliviar e limpar. Não era estética. Era sobrevivência com dignidade.

O Papiro de Ebers e as primeiras “obturações” com resinas e malaquite

Se há um nome que merece ficar no texto, é este: Papiro de Ebers. Datado de cerca de 1550 a.C., é um dos tratados médicos mais conhecidos do Egipto faraónico e inclui receitas e prescrições que tocam diretamente a boca, os dentes e os tecidos periodontais. Entre as descrições mais citadas aparecem misturas de resinas vegetais e minerais, incluindo a malaquite, associadas a problemas orais. Aqui convém ser rigoroso e, ao mesmo tempo, justo: isto não era uma obturação moderna. Mas a lógica é surpreendentemente reconhecível. Se há uma cavidade, uma fratura ou uma zona exposta que “arde” com a comida e piora com o tempo, então selar e proteger faz sentido. A ciência moderna não “prova” que cada receita funcionava, mas consegue explicar por que certas escolhas tinham alguma plausibilidade: resinas e algumas substâncias naturais podem ter atividade antimicrobiana e efeito protetor físico, mesmo que de forma limitada. O interessante é o salto mental: alguém tentou interromper o ciclo dor-exposição-alimento-infeção com os meios disponíveis.

pontes feitas em dentes or antigos egipcios

Na figura podem ver-se pontes feitas em dentes por antigos egípcios.

Se há um nome que merece ficar no texto, é este: Papiro de Ebers. Datado de cerca de 1550 a.C., é um dos tratados médicos mais conhecidos do Egipto faraónico e inclui receitas e prescrições que tocam diretamente a boca, os dentes e os tecidos periodontais. […]

Fibras entre dentes e o antepassado improvável do fio dentário

Há outro detalhe delicioso pela sua simplicidade: análises forenses e descrições de investigações a múmias referem a presença de fibras vegetais entre dentes, sugerindo um gesto rudimentar de limpeza interdentária. Não é fio dentário, mas é a mesma ideia: se fica preso, remove-se. Se isto te parece óbvio, ótimo. É porque, no fundo, a higiene oral tem muito de mecânica básica. O que muda, hoje, é que sabemos onde a placa se acumula, como inflama a gengiva e como evolui para doença periodontal se ficar lá tempo suficiente. Eles não tinham esse mapa. Tinham desconforto e tentativa.

O Papiro de Edwin Smith, mirra, vinho e o início da conversa sobre gengivas

Outro documento que aparece repetidamente quando se fala de medicina egípcia é o Papiro de Edwin Smith, datado de cerca do século XVII a.C. É conhecido sobretudo pela abordagem mais “cirúrgica” e descritiva. Em paralelo, outros registos e compilações referem tratamentos para inflamações e desconfortos que envolviam ingredientes como mirra e vinho. A mirra, em particular, atravessa séculos de uso tradicional, e aqui a ciência moderna consegue acrescentar algo de útil: há evidência experimental e farmacológica de que extratos de mirra têm atividade anti-inflamatória e antimicrobiana, o que ajuda a perceber por que motivo apareceu, repetidamente, em práticas de higiene e cuidado oral. Não é um convite a “fazer em casa”. É uma explicação: alguns ingredientes antigos não eram aleatórios.

Salsa para o hálito e o lado social da boca

Este é o tipo de pormenor que parece pequeno até nos lembrarmos do óbvio: mau hálito estraga conversas, aproximações, confiança. Há referências históricas ao uso de folhas aromáticas, incluindo salsa, mastigadas para refrescar o hálito. Não substitui higiene, mas diz-nos algo muito claro: a boca sempre teve um papel social. E isso não mudou. Mudou apenas o nível de controlo que conseguimos ter sobre as causas.

“Implantes” no Antigo Egipto: tentativa, estatuto e uma nota importante sobre o que é provável

Há quem adore a frase “os egípcios já faziam implantes”. Fica bem num vídeo curto. Clinicamente, convém travar um pouco esse entusiasmo. O que existe, de forma mais consistente na literatura, são relatos de tentativas de substituição dentária e de peças protéticas, por vezes associadas a marfim, osso ou dentes humanos, mas com forte debate sobre se eram funcionais em vida ou colocadas após a morte por motivos rituais. Ou seja, a ideia de repor um dente pode ser antiga, sim. A previsibilidade de integração e função, essa, é moderna. A implantologia atual não é “um dente colocado no osso”. É uma sequência: avaliação, controlo de infeção, planeamento, execução e manutenção. E é por isso que hoje conseguimos resultados que, naquele contexto, eram praticamente impossíveis de garantir.

“Pasta dentífrica” com pedra-pomes e casca de ovo: quando limpar pode também desgastar

O Egipto antigo também é frequentemente citado pela existência de uma receita primitiva de pasta dentífrica, com ingredientes como casca de ovo moída, pedra-pomes, cinzas e resinas. O princípio é brutalmente simples: abrasão remove depósitos e manchas. O risco também é simples: abrasão em excesso desgasta. A diferença entre limpeza útil e desgaste cumulativo está na calibragem, na técnica e na frequência, coisas que hoje conseguimos controlar com dentífricos formulados e orientação clínica. Na altura, o equilíbrio era mais “à confiança”. Ainda assim, a intenção é clara: havia preocupação com limpeza, com aspeto e, muito provavelmente, com conforto.

Abcessos, drenagem e o que a dor obriga a fazer

Textos médicos antigos referem procedimentos para aliviar dor através da abertura e drenagem de infeções. Visto com olhos atuais, parece agressivo. Visto no contexto da época, é lógica fisiológica: a pressão de um abcesso dói, e drenar alivia. A medicina dentária moderna faz o mesmo com outra segurança e outro controlo: diagnóstico, anestesia, assepsia e acompanhamento. Aqui há um ponto que interessa mesmo a quem lê isto hoje: as infeções dentárias não são “apenas dor”. Podem evoluir. E é por isso que a ciência moderna insiste tanto em não normalizar dor persistente, inchaço progressivo e febre.

Ópio no Papiro de Ebers e a eterna tentativa de desligar a dor

O Papiro de Ebers também é associado a referências ao ópio como analgésico. Isto não é surpreendente: quando não se consegue resolver a causa, tenta-se controlar o sintoma. O paralelo com hoje não é “usar ópio”, obviamente. O paralelo é perceber que a dor dentária sempre foi suficientemente intensa para levar sociedades inteiras a procurar substâncias analgésicas. O que mudou é que, hoje, conseguimos tratar a origem do problema com muito mais eficácia e previsibilidade, em vez de apenas adormecer a dor e esperar.

O que fica da tradição e o que a clínica recomenda hoje

Se este texto tiver de servir para alguma coisa prática, que seja isto: quase tudo o que dói na boca começa por sinais pequenos que parecem negociáveis. A sensibilidade que aparece “só ao frio”, a gengiva que sangra “só quando escovas com mais força”, o dente que incomoda “só ao mastigar daquele lado”. A história do Egipto antigo lembra-nos uma coisa com ironia suficiente para ser memorável: eles tinham preocupação com dentes sem terem ferramentas. Nós temos ferramentas e, mesmo assim, adiamos. O conselho clínico mais sólido continua simples: quando um sintoma se repete, merece avaliação. Não para dramatizar, mas para evitar escaladas. E sim, também para evitar surpresas. Se a tua boca te está a dar pistas, vale a pena ouvi-las cedo.

Referências Científicas

Metwaly AM, et al. Traditional ancient Egyptian medicine: A review. (Inclui discussão sobre problemas dentários nos papiros de Ebers e Edwin Smith e evidência de procedimentos relacionados com infeções.) https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8459052/Greeff C. Dentists and Dentistry in Ancient Egypt. Journal for Semitics. 2014;23(1):90–113. (Discussão do Papiro de Ebers e prescrições relacionadas com estruturas orais.) https://unisapressjournals.co.za/index.php/JSEM/article/download/2774/1446/12228Su S, Wang T, Duan J, et al. Anti-inflammatory and analgesic activity of different extracts of Commiphora myrrha. Journal of Ethnopharmacology. 2011;134(2):251–258. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21167270/Berghult B. Ancient Egyptian odontology. Swed Dent J. 1999. (Revisão sobre evidência, limites e debate sobre intervenções/protesia.) https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11625678/