saúde das gengivas. guia prático para evitar periodontite e perder menos dentes

Saúde das gengivas: o alarme que quase toda a gente ignora

Sangras quando escovas ou passas o fio? O hálito parece pior em certos dias? Há uma sensação de peso ou desconforto nas gengivas que vais empurrando com a barriga? Em muitos casos, é assim que tudo começa. Não com dor intensa, mas com pequenos sinais que se tornam “normais” no dia a dia. E é aqui que está o problema: o que parece apenas irritação pode ser o primeiro capítulo de uma periodontite, uma das principais causas de perda de dentes em adultos. Este guia é para quem quer evitar chegar a esse ponto e preservar o máximo de dentes possível ao longo da vida.

Gengivite vs periodontite: quando a inflamação passa de aviso a dano real

De forma simples, há duas grandes fases no problema das gengivas.

Na gengivite, tens inflamação da margem gengival, vermelhidão, sangramento ao escovar ou passar fio, alguma sensibilidade. Mas ainda não há perda de osso à volta dos dentes. É um aviso. Quando se atua aqui, com higiene rigorosa em casa e limpeza profissional, a situação tende a reverter.

Na periodontite, a inflamação vai mais fundo. As bactérias e a resposta inflamatória começam a destruir o osso e o ligamento que seguram o dente. Surgem bolsas periodontais, retração gengival, mobilidade em fases avançadas. O dano ósseo é irreversível: pode estabilizar, mas não volta ao ponto zero. É isto que, a médio e longo prazo, leva muitos adultos a perder dentes que “não tinham cárie nenhuma”.

Porque é que se perde osso (e dentes) quando se adia a consulta

A causa inicial é o biofilme bacteriano, aquilo que chamamos placa. Se a placa se acumula de forma crónica, o organismo responde com inflamação. Em algumas pessoas, essa inflamação é mais intensa e destrutiva, sobretudo quando se juntam fatores de risco como tabaco, diabetes descontrolada ou predisposição genética.

Com o tempo, o cálculo (tártaro) fixa-se abaixo da gengiva, as bolsas aprofundam e criam um ambiente perfeito para bactérias agressivas. A mastigação passa a exercer força sobre um suporte ósseo cada vez menor. O resultado é previsível: dentes que abanam, afastamentos, espaços que não existiam, dificuldade em comer certos alimentos.

A parte mais ingrata é esta: muitas vezes o desconforto é discreto até ser tarde. Quem espera por dor intensa, costuma chegar numa fase em que já se perdeu mais osso do que seria desejável.

[…] Em situações em que a doença periodontal já provocou cáries radiculares, fraturas ou perdas extensas de estrutura dentária, podem ser necessários tratamentos em áreas como a dentisteria. Restaurar a anatomia e a função mastigatória ajuda a distribuir melhor as forças e protege o que ainda se pode manter.

Fatores de risco: quando as gengivas jogam em desvantagem

Há coisas que não consegues mudar, como a genética, mas há outras que estão nas tuas mãos. Entre os fatores que mais empurram a periodontite para a frente estão:

  • Tabaco: reduz a capacidade de defesa local e “mascara” o sangramento, o que atrasa o diagnóstico.
  • Diabetes mal controlada: níveis elevados de glicemia agravam a inflamação e tornam mais difícil estabilizar a doença.
  • Higiene oral irregular: escovagens apressadas, ausência de fio ou escovas interdentárias, sobretudo em zonas posteriores.
  • Stress crónico e sono de má qualidade: o organismo entra em modo inflamatório permanente.
  • História familiar de perda de dentes “cedo” por problemas de gengivas.

Conhecer estes fatores não serve para culpabilizar ninguém, mas para perceber que, se te enquadras em vários, precisas de vigilância periodontal mais apertada.

Guia diário em casa: o mínimo eficaz que muda o rumo

Não é preciso um arsenal de produtos. É preciso consistência e técnica.

Escovagem duas vezes por dia, com uma escova de cerdas macias e movimentos controlados junto à margem gengival. O objetivo não é “esfregar”, é varrer a placa.

Uso diário de fio ou fita dentária e, quando indicado, escovas interdentárias adaptadas aos espaços entre dentes. É aqui que a placa se acumula em silêncio e mais contribui para a progressão da doença.

Escolha de uma pasta com flúor e, em casos específicos, com componentes que ajudem no controlo da inflamação, sempre com orientação da equipa clínica.

Atitude de vigilância: sangramento persistente, mau sabor recorrente, sensibilidade nova ao frio ou sensação de dentes a afastar-se são sinais para não ignorar.

O que acontece numa avaliação periodontal completa

Numa consulta focada na saúde das gengivas, o objetivo não é “apenas uma limpeza”. É fazer um mapa da situação.

Começa pela anamnese: doenças sistémicas, medicação, hábitos de tabaco, histórico familiar de perda dentária, rotina de higiene oral. Segue-se o exame clínico, onde se avalia sangramento, textura gengival, presença de recessões, mobilidade dentária.

A medição das bolsas periodontais, dente a dente, é um momento chave: mostra onde a inflamação está a causar destruição de suporte. Radiografias adequadas ajudam a ver o nível ósseo real. Com base nestes dados, define-se um diagnóstico e um plano faseado.

Numa fase inicial, a prioridade é remover a placa e o tártaro acima e abaixo da gengiva, com instruções personalizadas de higiene. Em muitos casos, só esta etapa já traz melhoria clara de sangramento, hálito e conforto. Em quadros mais avançados, podem ser necessários procedimentos adicionais, sempre com o objetivo de estabilizar a doença e preservar dentes.

Quando faz sentido tratar em profundidade e articular com outras áreas

Em situações em que a doença periodontal já provocou cáries radiculares, fraturas ou perdas extensas de estrutura dentária, podem ser necessários tratamentos em áreas como a dentisteria. Restaurar a anatomia e a função mastigatória ajuda a distribuir melhor as forças e protege o que ainda se pode manter.

Noutros casos, dentes com mobilidade avançada ou perda óssea extrema podem não ser viáveis a longo prazo. Aqui entra a decisão difícil, mas importante, de extrair o que já não é recuperável, planear prótese ou implantes e concentrar o esforço em preservar os dentes restantes com saúde periodontal estável.

Manutenção: o verdadeiro segredo para perder menos dentes

Mesmo depois de controlar a periodontite, o trabalho não fica “arrumado”. A doença tem comportamento crónico: pode ficar estável durante anos, se houver manutenção, ou reativar se a placa voltar a acumular-se.

As consultas de manutenção periodontal são programadas de acordo com o risco: alguns pacientes precisam de ser vistos de três em três meses, outros de seis em seis. Nessas consultas, revê-se a higiene, remove-se tártaro residual, monitorizam-se as bolsas e ajustam-se estratégias.

Os estudos mostram que, em doentes com doença periodontal controlada e acompanhamento regular, a média de dentes perdidos por ano baixa de forma muito significativa. Em termos práticos, isto significa chegar a idades mais avançadas com uma dentição funcional, sem depender de próteses extensas.

Quando já há periodontite: ainda vale a pena agir?

Sim. Mesmo quando já existe perda óssea, intervir faz diferença. O objetivo passa de “prevenir que apareça” para “impedir que avance”. Em muitos casos, é possível estabilizar a doença, reduzir a profundidade das bolsas, melhorar o conforto na mastigação e preservar dentes que, de outro modo, se perderiam.

A chave está na honestidade do diagnóstico e na clareza do plano. É importante que saibas quais os dentes com bom prognóstico, quais têm prognóstico reservado e quais, realisticamente, não se mantêm no longo prazo. Isto permite planear substituições, se forem necessárias, com tempo e sem decisões tomadas em cima da dor ou da urgência.

Cuidar das gengivas é cuidar do futuro dos teus dentes

A saúde das gengivas não é um detalhe secundário. É a base que mantém os dentes onde devem estar: na boca, a funcionar. Sangramento, mau hálito recorrente, gengivas que “encolhem” ou dentes que começam a abrir espaços não são “manias”, são sinais a levar a sério.

Quanto mais cedo se faz uma avaliação periodontal séria, mais simples e menos invasivo tende a ser o plano. E, na prática, mais dentes conseguimos manter ao longo da vida. Se sentes que já adiaste demasiado, este pode ser o momento para inverter o rumo.

Agendar avaliação periodontal

Referências

  1. Tonetti MS, Greenwell H, Kornman KS. Staging and grading of periodontitis: Framework and proposal of a new classification and case definition. J Clin Periodontol. 2018;45(Suppl 20):S149–S161. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29926952/
  2. Sanz M, Herrera D, Kebschull M, et al. Treatment of stage I–III periodontitis – The EFP S3 level clinical practice guideline. J Clin Periodontol. 2020;47(Suppl 22):4–60. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32383274/
  3. Needleman I, Garcia R, Gkranias N, et al. Mean annual attachment, bone level, and tooth loss: A systematic review. J Periodontol. 2018;89(Suppl 1):S120–S139. Disponível em: https://aap.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/JPER.17-0062