porque é que tenho de fazer tomografia 3d antes de aplicar um implante

Há uma pergunta que aparece muitas vezes na primeira consulta, dita de forma simples e com toda a razão: “Se já existe uma radiografia, porque é que preciso de tomografia 3D?” Em Setúbal, como em qualquer lado, ninguém gosta de fazer exames “só porque sim”, sobretudo quando se trata de saúde e de decisões cirúrgicas. A resposta também é simples, mas tem camadas: a tomografia 3D não é um extra para enfeitar o processo. É, muitas vezes, o exame que transforma um plano baseado em suposições num plano baseado em medidas.

Radiografia vs tomografia 3D: a diferença que muda o tipo de decisão

Uma radiografia tradicional dá uma imagem em duas dimensões. É útil, rápida e continua a ser importante em muitos contextos. O problema é que um implante é um procedimento tridimensional. O que interessa ao clínico não é apenas “há osso”, é quanto osso existe em largura e altura, qual a inclinação do osso, onde estão estruturas anatómicas críticas e que margem de segurança existe para posicionar o implante com estabilidade e sem surpresas.

A tomografia 3D, também conhecida por CBCT, permite ver cortes transversais e reconstruções em 3D, ou seja, dá acesso ao que não se vê numa imagem plana. E é esse acesso que suporta a decisão clínica com mais precisão.

O que a tomografia 3D mostra que a radiografia não mostra bem

Há três áreas onde a tomografia costuma ser decisiva:

A largura do osso
Em 2D, podes ter a impressão de que a altura está excelente, mas a largura pode ser insuficiente. Isto faz diferença porque um implante precisa de osso à volta para ficar estável e para manter saúde gengival a longo prazo.

A posição de nervos e seios maxilares
Na mandíbula, a proximidade ao canal mandibular e a ramos nervosos é um tema sério. No maxilar superior, o seio maxilar pode limitar a altura óssea disponível. O 3D ajuda a medir distâncias e a definir estratégias de segurança.

A forma e densidade do osso e irregularidades
Concavidades, reabsorções assimétricas, septos ósseos, espessuras variáveis e “surpresas” anatómicas aparecem com muito mais clareza em 3D. Isto influencia o tipo de implante, o comprimento, o diâmetro e o posicionamento.

Um micro-cenário típico em consulta

Imagina um caso frequente: falta um molar inferior há alguns anos. Na radiografia, parece haver altura óssea suficiente. A pessoa está pronta para avançar e só quer saber “quando é a cirurgia”.
A tomografia 3D mostra duas coisas que mudam o plano: uma concavidade lingual e o canal do nervo mais próximo do que o esperado. A decisão deixa de ser “vamos colocar um implante standard” e passa a ser “vamos escolher dimensões e posicionamento com margem segura, ou ajustar a estratégia para evitar risco neurossensorial”.
O objetivo do exame não é complicar. É evitar que uma cirurgia aparentemente simples se torne desnecessariamente arriscada.

Segurança não é só evitar complicações, é planear para durar

Quando se fala de tomografia, muita gente pensa apenas em “evitar tocar no nervo” ou “não perfurar o seio”. Isso é crucial, mas há outra dimensão igualmente importante: estética e manutenção.
Um implante mal posicionado pode não doer no dia, mas pode criar dificuldades de higiene, inflamação recorrente, perda óssea peri-implantar ou um resultado estético fraco, sobretudo em zonas anteriores. O 3D ajuda a planear o implante para suportar a futura coroa com o perfil certo, com espaço para gengiva saudável e acesso a higienização.

medico dentisto a apontar para ecrã com tomografia 3d da dentadura

[…] Um dente perdido não fica “num vácuo”. O osso naquela zona tende a reabsorver com o tempo, os dentes vizinhos podem migrar e o antagonista (o de cima ou de baixo) pode extruir, procurando contacto. Isto não acontece de um dia para o outro, mas vai acontecendo.

Planeamento digital: quando o 3D passa de “imagem” a “mapa”

A tomografia 3D não é apenas um conjunto de imagens. É a base para planeamento digital. Em muitos casos, permite simular o posicionamento do implante e cruzar essa posição com a reabilitação protética prevista. Isto é particularmente útil quando:
Existe pouco osso e cada milímetro conta
Há necessidade de extrações e planeamento de carga imediata
A zona é estética e o posicionamento tem de ser milimétrico
Se prevê regeneração óssea ou elevação do seio maxilar
Se pretende utilizar guias cirúrgicas para aumentar previsibilidade

O resultado prático para o paciente é um plano mais controlado e menos dependente de improviso intraoperatório.

Afinal, é sempre obrigatório fazer tomografia 3D?

Nem todos os casos exigem o mesmo nível de imagiologia, e a decisão depende do contexto clínico. Há situações em que a anatomia é previsível, a zona é segura e o caso é simples. Mesmo assim, quando o objetivo é colocar um implante com o máximo de previsibilidade, as orientações clínicas e consensos de várias entidades defendem o uso de imagiologia de corte transversal para avaliar o local do implante e estruturas adjacentes, especialmente quando há proximidade a áreas de risco ou necessidade de procedimentos adicionais.

Na prática, a pergunta mais útil não é “é obrigatório?”, é “o que é que podemos perder por não ver em 3D?”. Se a resposta for “nada de relevante”, pode não ser necessário. Se a resposta for “podemos falhar medidas críticas”, então o exame passa a ser uma decisão de prudência clínica.

Radiação: a preocupação legítima e como se decide com bom senso

É normal que alguém pergunte pela radiação. A tomografia 3D tem mais dose do que uma radiografia intraoral, mas, em geral, é significativamente inferior à de uma TC médica convencional, e pode ser optimizada por protocolos com campo de visão reduzido, focado apenas na zona necessária.
O princípio é simples: usar a menor dose que ainda permita diagnóstico adequado. Quando um exame reduz incerteza e evita riscos, tende a justificar-se. Quando não acrescenta informação relevante, não se pede.

Quando o 3D muda o plano de forma prática

Há três cenários em que a tomografia costuma alterar o plano, mesmo quando o paciente acha que “está tudo claro”:

Falta de osso escondida
A altura parece boa, mas a largura é insuficiente. O plano pode passar a incluir regeneração, ou reposicionamento com outra estratégia.

Anatomia mais próxima do que parecia
Nervo e seio maxilar mais perto, concavidades, septos. Ajusta-se o comprimento do implante e o posicionamento para manter segurança.

Doença ou alterações que precisam de ser tratadas antes
Lesões, inflamação crónica relacionada com seio maxilar, sinais de infeção, reabsorções. O plano passa a incluir tratamento prévio para melhorar prognóstico.

O que acontece depois do exame

A tomografia 3D, por si só, não resolve nada. O valor está em como é interpretada e integrada no plano. Depois do exame, numa consulta bem conduzida, deves sair com:

  • Explicação clara do que se viu e do que isso significa no teu caso
  • Plano por etapas, se for necessário, com prioridades definidas
  • Alternativas quando existirem, com prós e contras clínicos
  • Expectativas sobre tempo, manutenção e cuidados pós-operatórios
  • Decisão alinhada com a tua saúde geral, hábitos e objetivo final

E é aqui que o tema da confiança entra com força. Não é confiar porque alguém diz “confia”. É confiar porque percebes o racional do plano, vês medidas, entendes riscos e ficas com um caminho definido.

Onde entram os implantes nesta conversa

A tomografia 3D é uma peça do processo de planeamento de implantes dentários. Não substitui a avaliação clínica, nem a saúde gengival, nem a higiene. Mas é o exame que permite planear com precisão numa zona onde “quase” pode ser perigoso.
Se o objetivo é colocar um implante com estabilidade, boa higiene futura e um resultado funcional e estético, ver em 3D é, muitas vezes, a diferença entre navegar por intuição ou por mapa.

Agendar consulta

Referências Científicas

  1. Bornstein MM, Horner K, Jacobs R. Cone beam computed tomography in implant dentistry: a systematic review focusing on guidelines, indications, and radiation dose risks. Clin Oral Implants Res. 2014. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24660190/
  2. Harris D, Horner K, Gröndahl K, et al. E.A.O. guidelines for the use of diagnostic imaging in implant dentistry: a consensus workshop update. Clin Oral Implants Res. 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22432473/
  3. Tyndall DA, Price JB, Tetradis S, et al. Selection criteria for dental implant site imaging: a position paper of the American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology. 2012. https://aaomr.org/common/Uploaded%20files/Position%20Papers/aaomr_implants_position_paper.pdf