
Mitologia e dentes: porque é que um dente de leite vale uma moeda
Quase todas as famílias têm a sua versão da história. Há casas em que um “rato dos dentes” troca o incisivo por uma moeda, outras em que é uma fada discreta que passa durante a noite. Em algumas aldeias ainda se ouve falar em atirar o dente para o telhado “para o próximo nascer direito”. Por trás destas histórias há sempre a mesma preocupação: que os dentes definitivos nasçam fortes, alinhados e sem problemas. Hoje sabemos muito mais sobre a dentição infantil do que quando estas tradições nasceram, mas elas continuam a ser uma ferramenta poderosa para tornar a perda dos dentes de leite menos assustadora. O segredo está em perceber o que queremos manter da mitologia e o que convém atualizar com o que a clínica hoje recomenda.
Do rato Pérez à fada dos dentes: o que é que estas histórias andam a dizer às crianças
A ideia de trocar dentes por proteção, sorte ou força não é recente. Em vários países europeus, incluindo França e Espanha, surgiu a figura de um pequeno rato que recolhe o dente em troca de um presente. O rato não é escolhido ao acaso. Os roedores têm dentes que crescem ao longo da vida, o que simboliza dentes fortes e sempre renovados. Noutras regiões, há tradições de enterrar o dente, atirá-lo para o telhado ou deixá-lo perto de um animal com “bons dentes”. A mensagem, mesmo que não fosse dita com estas palavras, era sempre parecida: “o teu corpo está a crescer, isto faz parte e há algo bom reservado para ti do outro lado do medo”.
A fada dos dentes, mais comum em culturas anglo-saxónicas, surge mais tarde como figura protetora, quase sempre associada a uma pequena recompensa debaixo da almofada. São variações do mesmo tema: transformar a ansiedade em curiosidade, dar algum controlo à criança e marcar o momento como algo positivo.
O que a ciência sabe hoje sobre dentes de leite
Os dentes de leite começam, em média, a nascer por volta dos 6 meses e completam-se até cerca dos 3 anos. Depois, entre os 6 e os 12 anos, vão caindo de forma faseada para dar lugar à dentição definitiva.
Para a criança, isto é uma espécie de “obra em curso” prolongada. Há alturas em que coça, noutras dói um pouco, noutras o dente abana durante semanas e a criança não sabe bem se o tira, se deixa ficar. É aqui que os rituais ajudam… desde que não criem comportamentos de risco.
Do ponto de vista clínico, há alguns princípios que hoje são muito claros:
Se o dente de leite está a abanar, mas ainda bem preso, não faz sentido puxar com força, torcer com guardanapos ou inventar manobras “criativas”.
Se o dente definitivo já se vê a nascer por trás e o dente de leite não se solta, vale a pena avaliar em consulta se faz sentido ajudar na remoção.
Se a cor, a forma ou o cheiro do dente de leite mudam de forma estranha antes de cair (escurece de repente, parte, cheira mal), é possível que exista trauma antigo ou infeção e convém não esperar pela “fada” para decidir o que fazer.

[…] Se a cor, a forma ou o cheiro do dente de leite mudam de forma estranha antes de cair (escurece de repente, parte, cheira mal), é possível que exista trauma antigo ou infeção e convém não esperar pela “fada” para decidir o que fazer.
Referências
- Parsons CLB, et al. Cultural Diversity of Traditions for the Disposal of Exfoliated Human Primary Teeth. Children (Basel). 2024;11(5):571. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC11852604/
- American Academy of Pediatric Dentistry. Dental Growth and Development. In: Reference Manual of Pediatric Dentistry. Chicago, Ill.: AAPD; 2024. Disponível em: https://www.aapd.org/globalassets/media/policies_guidelines/r_dentalgrowth.pdf
- American Academy of Pediatric Dentistry. Management of the Developing Dentition and Occlusion in Pediatric Dentistry. Reference Manual of Pediatric Dentistry. 2021;408-425. Disponível em: https://www.aapd.org/research/oral-health-policies–recommendations/management-of-the-developing-dentition-and-occlusion-in-pediatric-dentistry/

