
Já teve periodontite? O que verificar antes de avançar para implantes
Quem perdeu dentes por periodontite chega muitas vezes à consulta de implantes com uma ideia tranquilizadora na cabeça: “o problema foi nos dentes naturais, com os implantes isso já não me afeta, porque são artificiais.” É uma suposição compreensível e clinicamente perigosa. O implante não apanha cáries, é verdade. Mas o tecido à volta dele adoece pelas mesmas bactérias que destruíram a dentição original.
Por isso, num paciente com história de doença periodontal, a avaliação para implantes dentários não começa no osso onde o implante vai entrar. Começa na pergunta que de facto decide o prognóstico: a periodontite que o levou a perder dentes está realmente controlada? Esta distinção, entre tratada e controlada, é o coração de tudo o que se segue, e raramente é explicada ao paciente com a franqueza que merece.
O que significa, na prática, ter periodontite “no passado”
A periodontite não se cura no sentido em que uma constipação passa. Estabiliza-se. Depois do tratamento, a inflamação trava, as bolsas reduzem, o osso para de se perder. Mas a suscetibilidade do paciente àquelas bactérias mantém-se ao longo da vida. É um pouco como a tensão arterial: controla-se, vigia-se, não se apaga.
Isto tem uma consequência directa. Um paciente que teve periodontite e que coloca implantes não fica com o problema resolvido pelo facto de já não ter os dentes que adoeceram. Carrega consigo um perfil de risco que o acompanha. A literatura é consistente neste ponto: pessoas com história de periodontite têm maior probabilidade de desenvolver peri-implantite e de perder implantes do que pessoas sem esse historial. Não é uma sentença, é uma estatística que se pode trabalhar a favor do paciente, desde que se saiba que ela existe.
Peri-implantite: a doença de que poucos ouviram falar
A peri-implantite é a inflamação dos tecidos à volta do implante, com perda do osso que o sustenta. Funciona de forma análoga à periodontite, com uma diferença incómoda: tende a progredir de modo mais rápido e mais silencioso. O implante não dói como um dente inflamado, não dá os mesmos avisos, e quando os sinais aparecem já houve, com frequência, perda óssea considerável.
Há ainda um detalhe que costuma surpreender. Um implante não tem o ligamento que prende o dente natural ao osso, uma estrutura que, no dente, funciona como barreira biológica e como fonte de irrigação. Sem esse ligamento, a defesa local contra a infeção é mais frágil. Daí que controlar as bactérias deixe de ser uma recomendação de bom senso e passe a ser uma condição de sobrevivência do implante.

A peri-implantite é a inflamação dos tecidos à volta do implante, com perda do osso que o sustenta. Funciona de forma análoga à periodontite, com uma diferença incómoda: tende a progredir de modo mais rápido e mais silencioso. […]
O que a avaliação pré-implante procura mesmo
Quando recebo um paciente com história de periodontite, a avaliação não se resume a confirmar se há osso suficiente. Procuro responder a um conjunto de perguntas que determinam se vale a pena avançar agora, mais tarde, ou com condições.
Primeiro, o estado periodontal atual. Existem bolsas residuais? Há sangramento à sondagem nos dentes que restam? Pontos de inflamação ativos são focos de bactérias que vão colonizar o implante mal ele seja colocado. Avançar sobre uma boca instável é construir sobre terreno que ainda se move.
Segundo, o controlo de placa do próprio paciente. Aqui a honestidade é mais útil do que a simpatia: se a higiene diária não estiver à altura, o resultado a longo prazo fica comprometido, por melhor que seja a cirurgia. Não é um juízo de carácter, é uma variável clínica com peso real.
Terceiro, os fatores sistémicos e de estilo de vida. O tabaco é o mais relevante, porque agrava a periodontite, prejudica a cicatrização e multiplica o risco de peri-implantite. A diabetes mal controlada segue na mesma direção. Nenhum destes fatores impede automaticamente os implantes, mas todos alteram a forma como o caso deve ser planeado e a probabilidade de sucesso.
Estabilizar primeiro, reabilitar depois
A sequência correta raramente é a que o paciente espera. Quem chega com pressa de “pôr os dentes” costuma estranhar quando se propõe tratar e estabilizar a periodontite antes de colocar fosse o que fosse. Mas a ordem não é burocracia. Colocar implantes numa boca com doença ativa é praticamente garantir que essa doença vai migrar para os novos tecidos.
Na Clínica Cristiana Rebelo, em Setúbal, este faseamento é discutido abertamente com cada paciente: o que precisa de ser tratado antes, quanto tempo de estabilização é prudente, e que plano de manutenção vai acompanhar os implantes depois de colocados. Essa conversa inicial poupa, muitas vezes, anos de frustração e o custo de uma reabilitação que falha cedo.
A manutenção é, talvez, o ponto que mais subestimam. Um paciente com história de periodontite não pode espaçar as consultas de controlo como quem nunca teve a doença. A vigilância profissional regular dos implantes não é um extra opcional; é parte integrante do tratamento e a forma mais eficaz de detetar problemas enquanto ainda são reversíveis.
Então, vale a pena fazer implantes?
Vale, na grande maioria dos casos. O que muda não é o “se”, mas o “como”. Um paciente com história de periodontite bem controlada, com boa higiene e acompanhamento adequado, pode ter implantes com excelente prognóstico a longo prazo. Os números melhoram drasticamente quando a doença está estabilizada e quando existe um programa de manutenção a sério.
A diferença entre um implante que dura décadas e um que falha em poucos anos raramente está na marca do implante ou na técnica cirúrgica isolada. Está, quase sempre, no que antecede e no que se segue à cirurgia. Quem teve periodontite tem todas as condições para ser um bom candidato a implantes, desde que entre neste processo a saber exatamente o terreno que pisa.
Referências
Schwarz, F. et al. — Peri-implantitis: consensus report of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases. *Journal of Clinical Periodontology*, 2018. onlinelibrary.wiley.com
Sousa, V. et al. — A systematic review of implant outcomes in treated periodontitis patients. *Clinical Oral Implants Research*, 2016. onlinelibrary.wiley.com
Sanz, M. et al. — Treatment of stage I–III periodontitis: The EFP S3 level clinical practice guideline. *Journal of Clinical Periodontology*, 2020. efp.org
