
Sensibilidade dentária a frio: quando o gelo não está no copo
Há quem descreva como uma “agulha fria” que atravessa o dente quando bebe água gelada. Dor curta, aguda, que some depressa… até voltar no gole seguinte. A tentação é comprar a primeira pasta “para dentes sensíveis”. Às vezes resulta. Noutras, mascara um problema que pede diagnóstico. A pergunta que interessa, dita sem floreios: é erosão, retração gengival ou cárie? E, perante isto, o que tratar primeiro para não andar em círculos?
Três suspeitos com perfis diferentes: erosão, retração, cárie
Erosão é desgaste químico. Ácidos da dieta (refrigerantes, citrinos, vinagres), refluxo ou vómitos frequentes corroem o esmalte e expõem dentina. A dor ao frio aparece cedo, sobretudo em incisivos e caninos, muitas vezes com brilho excessivo do esmalte e margens “arredondadas”.
Retração gengival é mecânica e biológica. Gengiva que desceu com escovagem agressiva, biotipo fino, aparelho, bruxismo ou doença periodontal antiga deixa o “colo” exposto. A raiz, sem esmalte, responde ao frio como um alarme.
Cárie é infeção e perda de mineral por ácidos produzidos por bactérias. Começa discreta, pode parecer uma mancha e evolui para cavidade. A sensibilidade ao frio é um dos primeiros sinais.
Três caminhos, um ponto comum: dentina exposta e túbulos abertos que comunicam com a polpa. O alívio duradouro não se compra, constrói-se com plano certo.
Uma triagem séria em 15 minutos (e porque evita meses de tentativa-erro)
Primeiro, história clínica. Quando dói, com quê, há quanto tempo, que hábitos alimentares tens, se range os dentes, que medicação tomas (boca seca agrava tudo). Depois, exame com ar, sonda suave e corantes para placa. Procura-se padrão: múltiplas superfícies lisas com brilho ácido apontam para erosão; colos em “V” e recessões para retração; pontos que prendem a sonda e manchas opacas indicam cárie. Se for preciso, radiografias interproximais e fotografia clínica ajudam a confirmar. Esta triagem poupa semanas de produtos errados e foca o tratamento onde está a causa.

[…] O detalhe que separa “funcionou” de “não fez nada” é banal: consistência e tempo. Sem isso, nenhuma fórmula vence a causa.
O que fazer primeiro se for erosão: travar o ácido, proteger, reconstruir o que já não volta
Sem controlo dos ácidos, qualquer pasta “desensibilizante” é balde furado. Ajustar consumo de refrigerantes, citrinos e vinagres; evitar escovar logo após algo ácido; usar palhinha quando faz sentido; saliva como aliada (hidratar, estimular com alimentos fibrosos; rever medicação que seca a boca com o médico assistente). Em clínica, vernizes com fluoreto estanhoso ou cálcio/fosfato ajudam a ocluir túbulos e reduzir dor. Se houver perda estrutural, restaurações adesivas mínimas devolvem forma e espessura de esmalte. Só depois faz sentido consolidar com uma pasta para sensibilidade.
Se for retração: ensinar a escovar é mais “cirurgia” do que parece
A melhor obturação do mundo falha se a escova continua a “raspar”. Técnica e pressão certas, escova macia, movimentos curtos, sem serrar o colo. Muitas vezes basta isto para reduzir a sensibilidade em semanas. Fatores mecânicos (aperto/bruxismo) pedem goteira de proteção; fios tensos e aparelhos exigem instruções específicas. Em recessões extensas ou estéticas, a cirurgia plástica periodontal pode cobrir raiz exposta. Até lá, materiais adesivos finos e vernizes dessensibilizantes fecham túbulos e tornam o frio suportável. Quando a causa é cárie ou restaurações infiltradas, a abordagem recai em dentisteria restauradora, e aqui a equipa atua com mão treinada em Dentisteria .
Se for cárie: tratar a lesão e selar a porta por onde o frio entra
Cáries iniciais podem remineralizar com protocolos de flúor de alta eficácia e higiene rigorosa, mas cavidades precisam de restauração. Resinas adesivas selam túbulos e recuperam a anatomia; onlays/coroas entram em cena quando a perda é grande. Se a sensibilidade ao frio é prolongada e latejante, convém despistar inflamação pulpar: atuar cedo evita tratamentos mais complexos. O que interessa aqui é a sequência: remover a causa, selar, só depois reforçar com pasta ou verniz dessensibilizante.
Pastas e vernizes “para sensibilidade”: como funcionam e quando contam
Há duas lógicas que a evidência suporta. Fechar túbulos (oclusão) e “acalmar” o nervo (modulação). No primeiro grupo entram arginina, hidroxiapatite, fluoreto estanhoso e nanopartículas de cálcio/fósforo. No segundo, nitrato de potássio. Em clínica, vernizes concentrados e agentes como glutaraldeído/HEMA oferecem alívio rápido; em casa, a pasta certa, usada todos os dias, sustenta o efeito. O detalhe que separa “funcionou” de “não fez nada” é banal: consistência e tempo. Sem isso, nenhuma fórmula vence a causa.
Bruxismo, fendas, branqueamentos: três “figurantes” que fazem barulho
O aperto noturno cria microfissuras e expõe dentina. Goteira de proteção redistribui forças e a sensibilidade cai. Fendas por trauma ou mastigação de objetos duros podem precisar de selagem adesiva. No branqueamento, a sensibilidade é frequente e transitória: protocolos com nitrato de potássio/fluoretos antes e durante reduzem picos sem sacrificar o resultado. Ignorar estes “detalhes” faz qualquer plano patinar.
O teste do copo: como perceber se estamos a melhorar
Em consultório, mede-se a resposta ao ar e ao frio em escala simples; em casa, usa o “teste do copo” uma vez por semana com água fresca e regista a sensação. A redução consistente ao longo de 2 a 4 semanas significa que o plano está a fechar túbulos e a remover gatilhos. Se nada muda, reavalia-se a causa. Sensibilidade que piora, dura mais de alguns segundos ou acorda de noite é sinal de alerta: pode já não ser “só” hipersensibilidade.
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